domingo, 23 de fevereiro de 2014

Quem autorizou a destruição do túmulo da beata Maria de Araújo? - Daniel Walker

Túmulo da beata na Capela do  Socorro
Até hoje não é possível afirmar com absoluta segurança quem foi realmente que deu a ordem para destruição do túmulo da beata Maria de Araújo, construído no interior da Capela do Socorro, em Juazeiro do Norte. Muitos escritores afirmaram que a ordem teria sido dada pelo bispo do Crato, Dom Francisco de Assis Pires, mas isso não é verdade, como veremos mais adiante. Um documento registrado em cartório afirma que a ordem partiu do vigário de Juazeiro da época, no caso Monsenhor José Alves de Lima. E aí vem a pergunta: o vigário de Juazeiro teria poderes para tal? 
Vamos analisar as duas questões. 

1. Por que não foi Dom Francisco? 
D. Quintino e D. Francisco
Explicação: A destruição do túmulo ocorreu no dia 22 de outubro de 1930.  Porém, naquela data, conforme explica a própria Diocese, a mesma estava vacante. Ou seja, estava sem titular, uma vez que Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva  (Foto 1), seu primeiro bispo,  havia falecido em 29 de dezembro de 1929 e o segundo Bispo de Crato, Dom Francisco de Assis Pires (Foto 2), só foi nomeado em 11 de agosto de 1931, tendo chegado ao Cariri somente em 10 de janeiro de 1932. Assim, seguramente, com base na cronologia, não partiu de nenhum bispo da Diocese de Crato a ordem para violação do túmulo da Beata.
Mons. Sóter e Armando
Enquanto durou a vacância na Diocese do Crato, respondia, como administrador diocesano, Monsenhor Vicente Sóter de Alencar, que era o Vigário-Geral da Diocese. Teria ele poderes para autorizar uma coisa de tamanha responsabilidade? Segundo nos informou o historiador Armando Rafael, chanceler da Diocese do Crato, “pelo Direito Canônico, o Administrador Diocesano não pode, sequer, nomear ou demitir ninguém da equipe anterior, ou – enquanto aguarda a chegada do novo bispo – fazer qualquer modificação na Diocese. O Administrador Diocesano tem poderes limitadíssimos. Eis o que reza o Direito Canônico:
“Cân. 428 – Parágrafo 1. Durante a sé vacante, nada se modifique.
Parágrafo 2. Os que cuidam do governo interino da diocese são proibidos de fazer qualquer coisa que possa de algum modo prejudicar a diocese ou os direitos episcopais; em particular são proibidos eles próprios, e por isso qualquer outro, por si ou por outros de retirar ou destruir documentos da cúria diocesana ou neles modificar qualquer coisa”.

Conforme ainda Armando “Monsenhor Vicente Sóter de Alencar, além de ser um sacerdote culto, equilibrado, bem informado e com fama de santidade, era grande amigo de Padre Cícero. É difícil que fosse autorizar uma coisa de tal envergadura, que feria os foros de civilização e normas do Direito Civil, além de causar profundo transtorno à veneranda figura do seu amigo, o Patriarca de Juazeiro”.

2. Resta, então, a possibilidade de ter sido Monsenhor José Alves de Lima, a qual será agora analisada.  
Mons. Lima e Amália
Explicação: Diz Amália Xavier de Oliveira, em seu livro O Padre Cícero que eu conheci, que “o então vigário de Juazeiro, Monsenhor José Alves de Lima, desejando preparar a Capela do Socorro para ser benta pelo sucessor de D. Quintino, mandou derribar o túmulo (da beata) para deixar igual todo o piso” E diz mais: “Os restos mortais estavam desfeitos no caixão e caíram no depósito que foi logo encerrado”  


Pe. Cícero e a beata
Padre Cicero tinha pela beata Maria de Araújo uma particular consideração, razão por que, quando ela morreu, lhe dedicou uma atenção especial. Mandou abrir-lhe a sepultura no interior da Capela do Socorro e providenciou-lhe um enterro digno de uma pessoa ilustre. Foi realmente um grande e inesquecível cortejo.
Ela morreu no dia 17 de janeiro de 1914, quando estava em curso o movimento sedicioso de Juazeiro, mais conhecido como Revolução de 1914. Um curioso documento particular, registrado em 3 de dezembro de 1930, no Cartório Machado, com o longo título de "NESTE VIDRO DEVIDAMENTE LACRADO SE ACHA TUDO QUE ENCONTROU-SE NOS DESPOJOS MORTAIS DA BEATA MARIA DE ARAÚJO, QUANDO EM 22.10.1930 FOI O SEU TÚMULO ABERTO CLANDESTINAMENTE POR ORDEM DO REVMO. VIGÁRIO DESTA CIDADE MONSENHOR JOSÉ ALVES DE LIMA" diz que o "corpo da beata Maria de Araújo foi trajado no hábito da Ordem Terceira de São Francisco, e foi depositado e trancado a chave em um ataúde de cedro devidamente envernizado a óleo por dentro e por fora e sepultado na Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conjunta ao cemitério público, no dia 18 do mesmo mês e ano, sendo acompanhado de grande multidão de pessoas, entre as quais se destacavam o Padre Cicero e importantes vultos políticos do Estado, que se achavam refugiados no Juazeiro". O mesmo documento informa mais adiante que em 22 de outubro de 1930, abriram o túmulo de alvenaria onde estava sepultada Maria de Araújo, e os encarregados do serviço asseveraram que não existiam dentro do túmulo os restos mortais da mesma. A violação do túmulo foi de surpresa, sem preceder autorização legal, sem conhecimento, sequer, do respectivo zelador do cemitério, o senhor Hildebrando Oliveira. Sabendo o Padre Cicero que se estava arrasando o referido túmulo, chamou, rapidamente, ao atual governador da cidade, o farmacêutico Jose Geraldo da Cruz, para conjuntamente com o fotógrafo João Candido e Fontes assistirem ao ato exumatório e mandarem recolher os restos mortais em outro túmulo no cemitério. Esses senhores, sem perda de tempo, foram ao local, encontrando já aberta a sepultura, de momentos. Informou-os o pedreiro de que só existiam ali restos de panos e a madeira do caixão. Examinaram eles o caixão, a sepultura e, também, os escombros atirados para fora onde colheram, apenas, uns escapulários das irmandades de Nossa Senhora das Dores, de Nossa Senhora do Carmo, da Paixão e de outras irmandades e o cordão de São Francisco, e um pedaço de crânio com cabelos, o qual está guardado neste vaso de vidro. A beata Maria de Araújo que em sua vida foi caluniada de toda a sorte, teve ainda depois de morta violado seu tumulo".

Apesar de o evento ter sido testemunhado por um fotógrafo, não existe nenhum registro fotográfico. Agora, é o caso de perguntar: teria mesmo Monsenhor Lima coragem suficiente para assumir tal empreitada? Não existe nenhum documento oficial da Igreja (nada consta no Livro de tombo da Paróquia) ou da Justiça comprovando que ele deu a ordem. Mas o certo mesmo é que alguém mandou destruir o túmulo e o fato se consumou, caracterizando um flagrante abuso de poder, um desrespeito às leis, pois não se faz exumação sem ordem judicial, e um acinte à família da beata, que deveria ter ficado com os restos mortais dela para sepultar em outro túmulo. 
Contudo, o mais incrível é esse fato ter acontecido sem que nenhuma manifestação popular tenha sido registrada, nenhuma autoridade judicial ter protestado, afinal, tratava-se de uma inominável afronta a um ser humano, uma mulher humilde, a beata de Juazeiro, enfim, a mulher que juntamente com o Padre Cícero mudou o rumo desta cidade. 
Generosa e Fátima
É possível que nenhuma revolta tenha ocorrido porque, segundo informa a historiadora Generosa Ferreira Alencar, em seu livro Homens e fatos na história do Juazeiro, em coautoria com Fátima Menezes, a violação do túmulo ocorreu enquanto Juazeiro vivia dias agitados, em meio à Revolução de 30, estando a cidade repleta de militares da força federal. Portanto, qualquer levante popular seria facilmente reprimido pela força militar. 
Isso alivia, mas não justifica. Será que não foi justamente aproveitando essa circunstância que Monsenhor Lima agiu? Na verdade, diante da consumação do fato Juazeiro foi covarde naquele tempo. Pois, por muito menos, os juazeirenses deram em outras oportunidades demonstração inequívoca de que não toleram injustiças. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Eu não estou aqui - Por Renato Casimiro

A recente celebração do centenário de morte da beata Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo (Joazeiro: *24.05.1862; +17.01.1914) teve como um dos momentos mais simbólicos a cerimônia na qual a beata teria nova sepultura. Consultado sobre a placa que encima o local, sugeri uma paráfrase ao epitáfio do grande poeta Mário Quintana: “Eu não estou aqui!” A isto, acrescentaríamos: “Aliás, eu estou aqui!” Tal aconteceu, e assim está lá. Moveu-me o intento, felizmente aceito, de que com isto ainda mais nos lembraremos com frase tão emblemática, não só a memória poética, mas a certeza da ressureição e da imortalidade da alma. De outra sorte, ao agregar o “eu estou aqui”, queremos firmar o nosso entendimento de que Maria de Araújo, por exemplo e vida, especialmente ao longo de amplo período de esquecimento, e da violência cometida, está ali, sim, pois não é admissível a negação de um derradeiro palmo de terra para o seu “repouso eterno”. O caso de Maria de Araújo, visto pela intolerância clerical de sua época, levou a infeliz a se tornar este ser histórico que se arrasta pelos séculos, como uma mulher sem túmulo. Até 22.10.1930, sabia-se que seus restos mortais estavam ali, na entrada da Capela do Socorro, ao lado direito, ao pé da parede, em modesto túmulo registrado em foto da época. Naquela data o ato violento, autorizado pelo Diocesano de então, converteu-se em crime hediondo perante os olhares do Patriarca e, ao tempo, pela indignação de cidadãos honrados, de povo e estudiosos que se deixaram ficar reflexivos sobre a triste sina deste infortúnio. Estranho é que, passados tantos anos, a homenagem aceita pela própria Igreja do Cariri se faz sob o mesmo clima marginal de então, ao pé do muro da Capela, mas agora externamente. Cabe a esta mesma Igreja esclarecer a este povo o que foi determinado há 83 anos. Se o vigário José de Lima o fez mediante imposição do diocesano, pode ser que haja correspondência ou algum relatório. Contudo, o único documento competente, firmado em cartório (03.12.1930) pelo protesto de cidadãos juazeirenses, assegura que ali já não encontrava quase nada, a não ser uns poucos resíduos do caixão, do crânio da beata, de sua vestimenta e adornos, postos em um vaso de vidro, mas também sem indicação de destino. Quanto ao procedimento instruido pelo vigário, é pouco provável que tenham posto em algum outro túmulo, mas aberto uma outra vala, sem qualquer identificação para o futuro. Sabe-se que até fotógrafo integrava o grupo que inspecionou o local após a violação. Mas, caprichosamente não há uma só imagem a propósito do interesse dos protestantes. Na comemoração do centenário, a própria Igreja do Cariri, reconheceu a mártir, lhe deu vivas e proclamou suas virtudes e heroismo. Mais que isto, é dever desta mesma Igreja, já que recentemente se preocupou com isto, proceder a uma “busca arqueológica”, não em jazigos autorizados do campo santo, mas no ambiente da Capela, exatamente no local tão reconhecido, o da sepultura original. Qual é a angústia e o escrúpulo prevalentes? Sem dúvida, a pauta existente na Sagrada Congregação e que nos remete à expectativa de uma revisão de todo o processo, com a ansiosa espera por uma reabilitação, também deverá ensejar, obrigatoriamente, um novo olhar de piedade cristã sobre a serva tão fiel.     


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

HOMILIA DE DOM FERNANDO PANICO, Bispo do Crato, na celebração da missa pelo centenário da morte da Beata Maria de Araújo

 17.01.2014
 Hoje celebramos o centenário da morte da Beata Maria de Araújo. E nós podemos contemplar esta mulher dentro do movimento dos beatos e das beatas que se criou ao redor do Pe. Cícero. Pessoas que buscavam, através de uma vivência da sua fé de uma maneira até radical, buscavam servir a glória de Deus, tornando-se abertas e disponíveis para ajudar, sobretudo os mais pobres, para viverem em comunidade os ensinamentos do Evangelho. Para expressarem, com a força da oração, o poder de Deus que age na vida da gente. A beata Maria de Araújo, assim como outras mulheres, foi uma destas testemunhas, que hoje ainda nos ensina, com o seu exemplo e com a sua própria vida, a serviço da justiça e da profecia do Reino de Deus. Eu gostaria de deixar-lhes nesta oportunidade umas poucas mensagens em forma de prece: estamos aqui para rezar. Esta é a única finalidade e o objetivo desta celebração deste centenário. Recordar uma figura que nos fala, uma mensagem que ainda merece ser escutada. A primeira mensagem tiramos da primeira leitura que ouvimos: Samuel que escuta o clamor do povo, um povo que pouco a pouco se afastava da lei de Deus, para se conformar com os povos pagãos, fazer o que os outros, que não tinham a fé verdadeira, estavam fazendo. Querer imitar a vida dos pagãos. Então Samuel recebeu do povo este clamor: queremos um Rei! Queremos nós também um Rei como os outros povos! Deus é o Rei do seu povo! E Samuel transmite para Deus essa vontade, esse grito do povo. Deus naturalmente, numa linguagem humana dizemos, sentiu-se ofendido pela ingratidão deste povo, que preferia outro a Ele. Estava pedindo um Rei para se afastar da verdadeira fé naquele Deus que o havia libertado da escravidão do Egito, que o havia introduzido na terra onde corre leite e mel. O Deus da Aliança, o Deus da Fidelidade... agora este Deus é como que tirado de lado, colocado de lado. O povo prefere viver como os pagãos: um reino humano, se esquecendo e negligenciando a obediência ao Rei divino. Amados irmãos, eu creio que a Beata Maria de Araújo nesta noite, neste dia e sempre, nos vem recordar que somente a Deus devemos a nossa obediência, a nossa fidelidade. Aos homens, eu creio que devemos ter respeito e aquela fraternidade que nos é pedida pelo Evangelho. Mas preferir a lei dos homens do que a de Deus é contrário à lei do Senhor. E foi o que a Beata Maria de Araújo nos provou com o seu testemunho! Ela que havia presenciado o fenômeno extraordinário, ela que tinha sido como que um instrumento nas mãos de Deus para a realização de um sinal que ainda hoje é objeto de reflexão, de estudo... mas ela, na sua profunda fé, reconheceu naquele gesto, naquele sinal, naquela hóstia sagrada que se converteu em sangue na boca dela, reconheceu o sinal da misericórdia de Deus que vem nos provar o seu amor, que perdoa a todos através do sangue de Cristo. Maria de Araújo foi colocada em situações para que ela negasse este fato. Ela preferiu silenciar. É a mártir do silêncio! Ela passou por muitas provações. Passou por sérias dificuldades: foi injustiçada, foi ofendida na sua dignidade de mulher, mas ela tudo suportou com amor. Não com raiva, não com ódio, não com o desejo de “dar o troco”, mas tudo fez com amor, obedecendo a Deus, reconhecendo na sua vida a vontade de Deus que a chamava para participar do mistério da Cruz redentora, de Cristo. Esta Beata Maria de Araújo é uma mulher que diante da Paixão de Cristo se comovia, chorava, entrava em transe, em êxtase, sentia no seu próprio corpo as dores da Paixão de Cristo, a coroa de espinhos, os estigmas... Diante da Cruz, contemplando o Cristo, o próprio Deus feito homem que por nosso amor aceitou morrer na Cruz, contemplando este amor de Deus por nós, ela sentia-se profundamente comovida. Por que? Porque amava Deus de verdade! E preferiu permanecer fiel a este amor do que agradar aos homens... Essa é a primeira prece que eu dirijo hoje, neste centenário: Nosso Pai, dai-nos a graça de permanecer sempre fieis a ti. De não fazermos de acordo com a mentalidade do mundo! Queremos ser fiéis a Jesus, hoje e sempre. Não queremos substituir Jesus por outros que o mundo hoje fala que são salvadores da Pátria. Só Jesus é o nosso Deus! Só o Evangelho é o caminho para a vida eterna! A mentalidade do mundo que ensina tanta coisa errada quer que adoremos os falsos ídolos: o prazer, o dinheiro, a vaidade, a glória humana, a injustiça, a violência... Senhor, só a ti nós queremos servir e amar. E pedimos a intercessão, lá no céu, da Beata Maria de Araújo, para permanecermos sempre puros nas nossas intenções. Puros de coração. Não um coração contaminado pelo pecado, mas um coração possuído pela graça de Deus. Vocês sabem também como a Beata Maria de Araújo enfrentou muitas provações na sua vida, por causa do fenômeno extraordinário que ocorreu naquele dia, na primeira sexta-feira do mês de março do ano de 1889, quando a hóstia se converteu em sangue na boca da Beata. Vocês sabem que a partir de então, começou um fenômeno que prova como Deus escreve direito por linhas tortas na história dos seus eleitos. Deus se serviu também desse fenômeno extraordinário, para suscitar um movimento grandioso de pessoas, que se colocam no caminho de Jesus, com Maria, Mãe das Dores, ao encontro do coração de Cristo, ao encontro do Deus da vida! Começaram as romarias. Com este fenômeno da hóstia consagrada, este afluxo de pessoas que vinham a Juazeiro para se encontrar com Padre Cícero, o conselheiro dos pobres, agora, a partir deste momento, o fluxo de pessoas que vinham a Juazeiro tem como finalidade encontrar-se com uma experiência forte de fé. Essa experiência que a Beata Maria de Araújo tinha realizado: a experiência do encontro com Cristo. Amados irmãos, esta é a segunda prece que eu faço nesta noite: venerar a memória da Beata Maria de Araújo hoje, deve servir para todos nós um renovado compromisso de encontro pessoal com Jesus. Um Jesus da vida da Beata Maria de Araújo. Um Jesus para o qual Maria de Araújo tinha consagrado inteiramente a sua vida; foi para Jesus que ela fez os votos de permanecer virgem, de ser pobre, como Jesus; de seguir Jesus pelo caminho da Paixão, e Jesus a ouviu, Jesus a escutou e a associou a este mistério da sua Cruz. Como sofreu a Beata Maria de Araújo! Os inquéritos do famoso processo movido contra o Pe. Cícero, e consequentemente contra o fenômeno que tinha como protagonista a Beata Maria de Araújo, esses inquéritos falam! Quantos vexames, quanto sofrimento, quantas injustiças... eu não hesito em dizer que a Maria de Araújo pode ser tida, para nós hoje, como uma das tantas mulheres que no nosso Cariri foram e continuam sendo injustiçadas, violentadas, assassinadas, mortas pela violência!!! É grande o número de mulheres na nossa sociedade, no nosso Cariri ...no último ano de 2013 e já agora nos primeiros dias do ano de 2014, são muitos os casos de homicídio, de morte violenta, de desrespeito a dignidade da mulher. A Beata Maria de Araújo foi uma dessas. Então a nossa prece, queridos amigos – no centenário não podemos olhar só para trás, nós olhamos para o nosso momento atual e olhamos também para o nosso futuro – e diante de tantas mulheres que, até depois da morte continuam sendo violentadas, pois não são reconhecidos os seus direitos, diante desses casos de sofrimento da mulher hoje, a nossa prece é para que Deus nos dê sabedoria, Deus nos dê conselho, Deus nos dê força para lutar contra esta onda na sociedade a ponto de que já não é mais notícia o fato do assassinato de uma mulher ou de um homem. Desrespeito à vida! É isso, queridos amigos, que hoje nós queremos pedir a Deus, lembrando a vida e a morte da Beata Maria de Araújo. Peçamos para que todos nós que estamos aqui reunidos, no centenário da morte dela, possamos ter esta inteligência, esta luz interior, de seguir a Jesus que é o nosso Rei, não preferir outros reis que não sejam Jesus e não abraçar outro reino que não seja o reino da Justiça e da Profecia! O Reino da Verdade e da Misericórdia! O Reino do Amor, o Reino de Deus! Que a Beata Maria de Araújo, assim como o Padre Cícero nos ajude a todos para que a nossa memória deles, seja uma memória viva, uma memória que transforme a nossa vida! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Cem anos sem Maria - Por Antônio Cairy

Aquele 17 de janeiro de 1914 marcou profundamente a historiografia de Juazeiro, morria Maria de Araújo, a beata protagonista do milagre da transformação da hóstia em sangue. Fato reprovado pelas autoridades eclesiásticas que em missão inquisitorial a condenaram como doente e embusteira. Foi ainda estereotipada pelo Padre Alencar Peixoto, ao defini-la como: "um produto do cruzamento de duas raças desprezíveis, dando, portanto, uma hibridez horrível, uma monstruosidade feito mulher". A imagem da beata avultou no cenário das teorias de Cesare lombroso pelo retrato anômalo rabiscado por forças repressivas da Igreja no Ceará.
Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo nascera em 24 de maio de 1863. Era uma criança resignada e de vida exemplar marcada por estigmas. Na busca por respostas aos êxtases e as visões místicas tornou-se beata numa Ordem religiosa laica constituída por mulheres órfãs do sertão da seca e da migração do medo.
No dia 22 de outubro de 1930 profanaram o túmulo de Maria e desapareceram com o seu corpo. Investigo duas possibilidades de destino que teve o corpo da beata de Juazeiro. Primeiro: A possibilidade do mesmo ter sido conduzido para Salvador, aonde as teorias de Lombroso se cristalizavam na prática pelos discípulos de Nina Rodrigues, um mito da medicina legal.
A profanação de túmulos era de praxe no sertão. No ano de 1940: “Corisco foi enterrado em Jeremoabo, na Bahia. Dias depois, violaram a sepultura, exumaram o corpo, e deceparam sua cabeça e seu braço direito. Qual a razão de tal barbárie? Na ocasião, alegou-se que os cientistas necessitavam estudar os restos mortais do cangaceiro. Neste sentido, estes foram medidos, pesados, estudados, mas nenhuma deformidade física ou mental foi descoberta. Daí, os restos ficaram expostos à visitação pública por mais de trinta anos, no Museu Nina Rodrigues, na Bahia, ao lado das cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros componentes do bando".(O Cruzeiro)
O Dr. Estácio de Lima, professor da Faculdade de Medicina e Diretor do Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues, revelou em reportagem à revista O Cruzeiro: “Temos aqui corpos inteiros mumificados, esqueletos, fetos, monstros etc.” e se justificou: “As próprias religiões conservam os corpos dos seus santos”.
Assim a segunda possibilidade de destino seria a própria Igreja. Sabemos que a Igreja estabelece a abertura dos túmulos para a constatação do estado do corpo ali enterrado, quando necessário. O Corpo Incorrupto, na definição da Igreja, é o corpo humano que possui a propriedade, considerada miraculosa, de não se decompor após a morte, sem que tenham sido utilizados métodos de embalsamamento. Será que Maria de Araújo tinha o Corpo Incorrupto?
Assim, pesquiso a possibilidade de destino do corpo de Maria para lugares inesperados, como também fora inesperado o fato da transformação da hóstia em sangue, naquela madrugada de primeiro de março de 1889, durante a comunhão da beata Maria de Araújo, ministrada pelo Padre Cícero Romão Batista. 

Antonio Cariry
Além das circunvalações de Juazeiro
17 de janeiro de 2014

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Juazeiro em 1909 (antes da independência) - Por Daniel Walker


Quem melhor descreve a vida do povoado de Juazeiro a partir da construção da Capela de Nossa Senhora das Dores é Amália Xavier de Oliveira. Mas para a organização deste capítulo recorremos também a outros autores, como padre Neri Feitosa e padre Azarias Sobreira, pois eles têm também boas informações. Consta que o padre Pedro Ribeiro de Carvalho, primeiro capelão de Juazeiro, era muito zeloso; cuidava da pequenina população do lugarejo, formada principalmente de pessoas do campo, ensinando-lhes a rezar e a trabalhar. Na época invernosa a população entregava-se aos trabalhos agrícolas; homens e mulheres iam para a roça ocupando-se no cultivo do arroz, milho, feijão, mandioca e algodão. Após a colheita, as mulheres ficavam em casa desenvolvendo trabalhos domésticos e fiando algodão para tecer a roupa dos maridos e dos filhos que elas mesmas costuravam, pois não havia máquina. Os homens se dedicavam aos trabalhos da Fazenda, alimentação do gado, solta das rezes nos pastos, ordenha, vaquejada, desmancha de mandioca, caça, pesca, etc. Todos ali aprendiam o Catecismo, rezavam e trabalhavam sob a orientação do padre que não permitia a promiscuidade e fazia tudo para evitar a discórdia entre os habitantes. Foi assim, nesta atmosfera de paz e tranquilidade, que viveram os primeiros habitantes de Juazeiro de 1827 a 1833, quando faleceu o padre Pedro cercado do respeito e amor de todos que o conheceram.
As festas mais concorridas, além das religiosas, eram os casamentos. Eram feitos com grande animação: três dias de festa antes do casamento na casa do pai da noiva ou de outra pessoa que o representasse e três dias na casa da família do noivo, após o casamento; depois destes festejos todos, o noivo tinha o direito de levar a noiva para casa.
Os padres que o substituíram na Capelinha eram também zelosos e piedosos. O povoado ia crescendo; novas casas foram construídas, sempre localizadas em torno da Capela e ao longo das proximidades da margem do rio Salgadinho. Surgiram, então, os primeiros aglomerados: Cacimba do Povo, Rua do Brejo, Feira do Capim, Mercado Velho, Boca das Cobras, Volta, Salgadinho, Mochila, Comboeiro (Malvas).
Com a chegada do Padre Cícero (em 11.04.1872) como capelão e graças a sua dinâmica atuação, já tão difundida nos livros que tratam de sua vida, o pequeno lugarejo sofreu profundas transformações até chegar ao estado em que se encontra hoje. 
O escritor J. G. Dias Sobreira, em seu livro Curiosidades e factos notáveis do Ceará, informa que quando visitou Juazeiro em 1856, o povoado tinha o seguinte aspecto:

O povoado, nesse tempo, compunha-se de umas sessenta casas de taipa, umas cobertas de telhas e outras de palha de carnaúba ou de palmeira. A disposição delas não obedecia à regra natural de arruamento. Logo na entrada do povoado, começavam duas fileiras de casas, sem guardar a eqüidistância, no seu prolongamento. Ao seguir iam elas afastando-se, de modo que, tendo no começo uns vinte metros de largura, terminavam com mais de cem metros  ao chegar à igreja. Não havia  estética nem nexo, naquela formação de arruamento”.     

Porém, em 1909, um documento apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará, em apoio ao pedido de autonomia municipal para Juazeiro, encontrado por Ralph della Cava nos Arquivos do Colégio Salesiano, informa que antes de se tornar independente do Crato o povoado de Juazeiro já se encontrava em acelerado ritmo de desenvolvimento, graças à ação do Padre Cícero.  Já possuía uma farmácia, um médico residente, um jornal, várias instituições religiosas, como o Apostolado da Oração, fundado pelo Padre Cícero, um escritório de intercâmbio comercial com a capital e uma instituição civil para cuidar do engrandecimento do lugar.  
A zona rural de Juazeiro possuía 22 engenhos de açúcar empenhados na produção de rapadura e subprodutos alcoólicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha de mandioca. Além do cultivo de arroz, feijão e milho, Juazeiro já se destacava na produção de borracha de maniçoba e algodão. Foi Padre Cícero quem introduziu a borracha no Cariri, na primeira década do século XX. E graças ao seu empenho, o algodão, cuja cultura havia sido quase totalmente abandonada, reapareceu entre 1908 e 1911. Ele chegou a comprar uma máquina de beneficiamento de algodão, movida a vapor. A borracha e o algodão foram os principais responsáveis pelo intercâmbio econômico de Juazeiro com o comércio exportador das grandes casas comerciais da capital cearense, especialmente com a firma francesa Boris Frères e a companhia brasileira de  Adolfo Barroso.
Mas o crescimento urbano do povoado foi ainda maior do que sua expansão agrícola. O comércio pulsava com a realização de uma feira semanal, realizada aos domingos em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores. Muitos dos comerciantes tinham imigrado para Juazeiro provenientes de pequenas cidades vizinhas e de outros Estados. Mas a atividade econômica principal do povoado provinha de suas indústrias artesanais de onde saíam uma grande e diversificada produção de produtos utilitários e decorativos, além de produtos religiosos. Tudo se desenvolveu tendo em vista atender às demandas de consumo em ascensão e como uma resposta oportuna à incapacidade das limitadas áreas rurais de Juazeiro para absorver os imigrantes nas atividades agrícolas, de imediato após a chegada. Chegando ao povoado, os romeiros, orientados pelo Padre Cícero, trabalhavam na manufatura de vários artigos de uso doméstico confeccionados com matéria-prima local: louças de barro, vasos, panelas, cutelaria, sapatos, objetos de couro, chapéus, esteiras de fibras vegetais, corda, barbante, sacos e outros receptáculos para estocar e expedir gêneros alimentícios. As habilidades manuais do povo e as necessidades do sertão levaram, eventualmente, à fabricação e exportação de instrumentos rurais típicos, tais como, enxadas, pás, facas, punhais, rifles, revólveres, balas e pólvora.
Logo cedo, devido à grande procura de seus produtos, muitos artesãos saíram de suas casas e passaram a produzir em maior escala em oficinas amplas e equipadas de máquinas, localizando-se no centro da cidade para ficarem mais ao alcance dos clientes. Os reflexos do desenvolvimento do povoado estavam bem evidentes nos impostos arrecadados... principalmente para o Crato. Por isso, o desejo de se tornar independente nasceu. 

Segundo o documento apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará,  provavelmente organizado por Dr. Floro Bartholomeu da Costa, em 1º de  janeiro de 1909, cuja cópia transcrevemos abaixo:

A povoação de Joaseiro, estado do Ceará, tem na presente data: 18 ruas, 4 travessas, etc., com a população de 15.050 habitantes, como se vê abaixo:
Rua Padre Cícero: 2.000 habitantes,
Rua S. Luzia: 1.538 habitantes,
Rua S. Jose: 1.100 habitantes,
Rua S. Francisco: 1.000 habitantes,
Rua S. Antônio: 557 habitantes,
Rua S. João: 603 habitantes,
Rua de S. Sebastião: 552 habitantes,
Rua de S. Pedro: 227 habitantes,
Rua do Rosário: 578 habitantes,
Rua do Perpétuo Socorro: 523 habitantes,
Rua do Cruzeiro: 540 habitantes,
Rua dos Passos: 1.040 habitantes,
Rua da Conceição: 800 habitantes,
Rua das Malvas: 175 habitantes,
Rua Grande do Salgadinho: 1.136 habitantes,
Rua da Cacimba Nova: 480 habitantes,
Praça da Capella de N. S. das Dores: 734 habitantes,
Praça da Liberdade: 345 habitantes,
Travessa de S. José: 287 habitantes,
Travessa de S. Francisco: 250 habitantes,
Travessa da Conceição: 209 habitantes,
Travessa da Rua Nova: 37 habitantes,
Beco do Cemitério Velho: 30 habitantes.

Na relação de profissionais, comércio e pequena indústria, destacamos:
Oficinas de Sapateiros: 20,
Carpintaria: 35, 
Marcenaria: 5, 
Pedreiros: 40, 
Fogueteiros: 15, 
Funileiros: 7, 
Ferreiros: 8, 
Ourives: 2,
Pintores desenhistas: 2, 
Fundição: 1, 
Barbeiros: 3, 
Alfaiates: 3, 
Alfaiates Modistas: 10, 
Padarias: 2, 
Farmácias: 2,
Lojas (Molhados-Mercadorias): 10, 
Lojas (Fazendas-Miudezas): 10, 
Bodegas (Molhados-Bebidas): 20,
Armazéns (Géneros Alimentícios): 10, 
Escolas (particulares, sexo feminino): 12, 
Escolas (particulares, sexo masculino): 6, 
Escolas (públicas, sexo feminino): 1, 
Escolas (públicas, sexo masculino): 1, 
Tipografia: 1,
Igrejas: 2 (uma em construção), 
Cemitérios: 2, 
Bolandeiras Algodão: 1, 
Engenho de ferro para cana: 18, 
Idem, madeira: 4, 
Estação telegráfica, Agência do Correio, Coletoria Estadual, Cartório do Registro Civil, e Serviço de iluminação pública.

Quem poderia imaginar que depois de cem anos Juazeiro seria o que é hoje! Este é o verdadeiro milagre do Padre Cícero!


domingo, 27 de janeiro de 2013

Revolução de 1914 - Por Manoel Caboclo


Primeiro combate
“Aos 14 de janeiro de 1913 houve o primeiro combate no lugar denominado Buriti a pouca distância do Crato, começando o mesmo a l hora da tarde e findando às 6, estando-se ambos os lados em linha de fogo. Os romeiros eram comandados pelos chefes: Dr. Floro Bartolomeu da Costa, Manoel Chiquinho, Zé Pedro, Manoel Pedro, Zé Terto, Manoel Santana, Chagas e Manoel Calixto, batalhões estes que se estendiam até o Pau Seco. As famílias sitiadas em Juazeiro estavam morrendo de fome, por isto mesmo, enquanto uns guerreavam, outros iam pegando sacos de farinha, matando criações e transportando para Juazeiro.
Conseguiram tomar ainda muitas armas rabelistas, como rifles, bombas envenenadas, facas e punhais, além de muita munição. Os soldados mortos não eram enterrados por falta de tempo, enquanto os romeiros mortos eram conduzidos imediatamente para Juazeiro. O Padre Cícero recomendava que não abandonassem nenhuma pessoa que encontrassem com um rosário no pescoço, pois ali estava o sinal de sua devoção e sua fé na Santíssima Virgem”.


Segundo combate
Foi este um dos mais tenebrosos combates contra Juazeiro. Os soldados rabelistas trouxeram as artilharias de guerra, inclusive as mais possantes peças, colocando-as no sítio Macacos, num ponto em que pudesse alvejar Juazeiro, de modo que numa só descarga deixaria Juazeiro arrasado. Os soldados estenderam linhas de fogo em todas as direções, avançando para a invasão para em poucos minutos acabarem com tudo aquilo que o Padre Cícero mais estimava: as imagens e seus romeiros.
Os romeiros entrincheirados por trás da terra do valado atiravam de pronto, depois passaram a atirar de cima da trincheira, num tiroteio cerrado enquanto davam vivas ao Padre Cícero e a Nossa Senhora das Dores. Não satisfeitos transpuseram o valado e foram enfrentar os soldados em campo aberto. Os romeiros avançaram e os soldados recuavam. Em dado momento os soldados fizeram as peças dispararem, contudo as mesmas mentiram fogo, perdendo de tudo a ação. Enquanto os rabelistas cantavam o hino da guerra, os romeiros cantavam o ofício de Nossa Senhora, avançando como valentes formigas, lutando sem nenhuma instrução. Dentro em pouco as peças estavam em poder dos romeiros e por ordem de Dr. Floro foram conduzidas para o antigo vapor do Padre Cícero em Juazeiro. 
O Dr. Floro Bartolomeu nos combates usava roupas grosseiras, alpercata de rabicho, um cantil, rifle, além de um rosário e uma medalha benta no pescoço (como se vê na foto). Logo depois da passeata pelas ruas, cantaram um Maneiro Pau na Praça da Liberdade em Juazeiro:
Meu Padim Ciço é quem ganha/ Maneiro pau, maneiro Pau/E banana prós Rabelos/Maneiro pau, maneiro pau. Agora vamos ao Crato/Maneiro pau, maneiro pau, /Levar um chá prós Rabelos/Maneiro pau, maneiro pau.
RECOMENDAÇÕES
O Padre Cícero recomendava a todos os romeiros combatentes que fossem unidos, obedecessem aos regulamentos dos superiores, rezassem o rosário todos os dias, levando cada um deles uma medalha, tendo de um lado a imagem de Nossa Senhora e do outro a imagem de São Bento. Adiantava mais que era proibido a todos o uso de bebidas alcoólicas, não tomassem água num só cantil, não acendessem cigarros um no outro, não perseguissem a pessoa alguma que fugisse, mesmo sendo soldado, não praticassem desonras.
No mesmo sentido fez uma recomendação a todos os moradores de Juazeiro, que nos seus quintais cavassem um grande buraco para botarem a família na hora dos tiroteios. Na hora dos combates, o Padre Cícero, com uma imagem do Senhor nas mãos, fazia suas orações, enquanto os romeiros, mesmo escondidos nos buracos, cantavam o ofício de Nossa Senhora.

Terceiro combate
Era um dia de quinta-feira, 24 de Janeiro de 1914, às 3 horas da tarde deu-se o início da tomada do Crato pelas tropas comandadas por Dr. Floro, Zé Pedro e outros. As tropas iam armadas de rifles, espingardas de fuzil, espingardas de cartuchos, bacamartes boca de sino, garruchas, manulixas, currupachés, mosquetões, combréias, chuços, cavadores, foices, machados, etc. As armas mais possantes haviam sido tomadas dos soldados nos combates anteriores.
Os macacos (como eram chamados os soldados rabelistas), acamparam nas proximidades do Crato, mais precisamente no lugar denominado Cemitério do Cólera a espera dos jagunços, assim eram denominados os romeiros. Naquele tempo, o lugar era coberto por árvores de grande porte. A corneta bradou mais ou menos às 3 horas da tarde, anunciando a primeira ameaça de luta: os romeiros dispararam alguns bacamartes, dando aviso da chegada. Logo iniciou-se tremendo tiroteio com fogo cerrado. Balas zuniam, dando a impressão de estarem em luta dois exércitos poderosos. Os romeiros avançaram. As famílias cratenses recolheram-se às suas casas. Os romeiros entravam pelos fundos das casas dos primeiros quarteirões. Enquanto uns atiravam, outros furavam as paredes e muros das casas, dando passagem ao batalhão. Já bem adiantados, mais ou menos no centro da cidade, deram início aos festejos, soltando os afamados foguetões envenenados, que alcançavam uma distância de mais ou menos dois quarteirões. Nos disparos das bombas, que só ocorriam na queda das mesmas, surgia uma fumaça que atingia a vista e a garganta. Não havia soldado que agüentasse. Zé Pedro com seu reforço ia se aproximando das principais artérias da cidade, dando vivas ao Padre Cícero e a Nossa Senhora das Dores. Ao chegarem na cadeia pública soltaram os presos e em especial Zé Pinheiro que foi um forte batalhador. Já eram quatro horas da tarde e o tiroteio continuava em todos os recantos da cidade, deixando apenas livres as estradas do Lameiro e Seminário, para dar passagem àqueles que quisessem fugir. Já alta hora da noite, o major Ladislau conhecendo sua maior derrota bradou: "Salve-se quem puder". A esta ordem, o restante da tropa e alguns correligionários fizeram-se das pernas. Somente na manhã do dia 24 de janeiro é que os romeiros saíram, pois ainda estavam recolhendo armas e alimentos.

Quarto combate
QUARTO COMBATE (TOMADA DE BARBALHA): No dia 27 de janeiro, às 8 horas do dia, deu-se a tomada de Barbalha. Houve pequeno tiroteio, pois felizmente já não encontraram quase ninguém. Havia romeiros que subiam por cima das casas à procura de soldados, porém nada encontravam, todos haviam fugido. QUINTO COMBATE (TOMADA DO IGUATU): Dia 3 de fevereiro de 1914, partia de Juazeiro o Cel. Pedro Silvino e José de Borba, comandando um batalhão de romeiros. Deu-se então o quinto combate na cidade de Iguatu. SEXTO COMBATE (TOMADA DE MIGUEL CALMON E FORTALEZA): No dia 22 de fevereiro, de 1914 houve um combate cerrado no qual apresentou-se o Capitão José da Penha Alves (Jota da Penha) que logo foi alvejado, tendo morte imediata. Depois da sua morte não houve mais impedimento. Os romeiros avançaram e sitiaram Fortaleza. O Cel. Marcos Franco Rabelo, Presidente do Estado, foi deposto do cargo. O Beato Chiquinho de bacamarte na mão gritava para o Rabelo: Chega para frente ladrão.
 No dia 4 de março de 1914, o Governo Federal decretou estado de sítio para o listado do Ceará, terminando assim a guerra. O Dr. Floro ganhou honras de Ministro e o Padre Cícero voltou a ser Prefeito de Juazeiro do Norte e os romeiros ficaram gloriosíssimos vitoriosos. "Todo aquele que invocar o nome do Senhor Deus será socorrido", palavras bíblicas. (Fonte:
Eu, o índio e a floresta, de Manoel Caboclo)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Produtos juazeirenses do passado: quem se lembra?

(Estes rótulos históricos foram resgatados por Renato Casimiro). 
Quem se lembra dos produtos acima? Esses e muitos outros eram fabricados pelo Sr. Antônio Ribeiro de Melo (foto ao lado), um dos mais prósperos industriários do Juazeiro de ontem. De sua fábrica saíam para abastecer o comércio da região e Estados vizinhos cajuína, guaraná, vinagre, quinado, aguardente, vinho, cerveja preta entre outros produtos tão apreciados na época, ou seja a partir de 1944, quando o Sr. Antônio Ribeiro instalou sua Indústria de Bebidas São Caetano, localizada na Rua São Paulo, 613. Ele nasceu em São Caetano, Pernambuco, no dia 5 de setembro de 1910. Com dez anos de idade, a convite do irmão mais velho, Luciano Teófilo (outro grande empresário)  veio para Juazeiro do Norte. Trabalhou inicialmente, no ramo de comércio de peles. Depois foi funcionário da Farmácia dos Pobres, de José Geraldo da Cruz.  A partir de 1944 passou a trabalhar por conta própria, organizando e movimentando uma indústria de bebidas. Foi vereador (1955-1958), primeiro vice-prefeito de Juazeiro do Norte (1959-1963, administração Dr. Antônio Conserva Feitosa), fundador da Sociedade Padre Cícero e cofundador da União Beneficente Juazeirense. Fundou também o Ginásio Adauto Bezerra e a Escola Técnica de Comércio Dr. Diniz, estabelecimentos de ensino que eram mantidos pela Sociedade Padre Cícero.  Faleceu em Juazeiro, no dia 24 de outubro de 1974. Era casado com a professora Lindalva Machado Ribeiro, com quem teve dois filhos: Antônio Cid e Maria Nazareth (médica). Tem uma praça em Juazeiro com seu nome. (Dados extraídos do livro Dados Biográficos dos Homenageados em Logradouros Públicos de Juazeiro do Norte, de Raimundo Araújo e Mário Bem Filho).


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O dia em que Dr. Floro proibiu o uso de ceroula nas ruas de Juazeiro

Esse Dr. Floro Bartolomeu da Costa era mesmo um cara durão! Tirano! Mas é bom reconhecer, ele agia assim em alguns casos porque queria ver Juazeiro em parceria com o progresso e a modernidade. Leiam o caso abaixo transcrito do livro Eu e o índio e a floresta, de Manoel Caboclo, e tirem suas conclusões.


“Era o ano de 1923, tenho a recordação dos meus sete anos de idade e também dos costumes do povo de Juazeiro daquela época. Qualquer menino crescia até os 12 ou 15 anos vestindo uma camisola que batia nos joelhos. Não se usavam cuecas, pois era objeto desconhecido. Os homens da agricultura vestiam um "ceroulão" com umas arriatas por trás e na boca da ceroula um cadarço para amarrar no tornozelo. No dia de feira, vinham todos à rua para fazer compras, todos de ceroula, somente ao chegarem às proximidades da cidade é que entravam para o mato, vestindo uma calça frouxa por cima da ceroula e uma camisa de tear, que cobria os joelhos. Recentemente chegado do Rio de Janeiro, o Dr. Floro Bartolomeu tomou a iniciativa de civilizar aquela gente, passando uma ordem para que ninguém entrasse na cidade vestido de ceroula e nem com a camisa por fora da calça. Ah! isto foi uma grande complicação para os juazeirenses que se viam obrigados a obedecer às ordens. Mas nem sempre todos cumpriam o dever. Aqueles que violavam a lei eram pegos pela polícia em plena feira e cortada a ponta da camisa que sobrava. Conheci o Cel. Fernando, um rico e respeitável senhor que gostava de acompanhar a moda, andando muito bem trajado. Eu ficava admirado como um homem trajava tão bem. Vestia ele um terno de casimira, calça estreita com suspensórios, paletó que lhe batia às curvas das pernas, por trás, usando um fraque, colete e camisa de mangas supostas, um chapéu de palhinha na cabeça, um par de botinas, sem meias, um par de botas que vinha até quase os joelhos e uma bengala”. (Texto de Manoel Caboclo, extraído do seu livro Eu, o índio e a floresta).

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Surpresa! Sedição de Juazeiro de 1914 pode ter sido arquitetada pelo prefeito de Crato


Segundo o historiador americano Ralph Della Cava, em seu livro Milagre em Joaseiro, reportando-se à Sedição de Juazeiro “Contrariamente à maioria das interpretações tanto contemporâneas quanto atuais, parece certo que o cel. Antônio Luís (foto ao lado)  foi o arquiteto principal do plano no Cariri; Floro foi o executor-chefe e Padre Cícero, seu cúmplice atônito e indeciso. É hoje evidente que não poderia ter sido de outra forma. Antônio Luís, primo-irmão do ex-governador Accioly, chefe deposto do Crato, antigo deputado estadual e outro "Grande Eleitor" de todo o Vale do Cariri, era quem mais tinha a lucrar com a "revolução". Além disso, tratava-se de um político experiente, enquanto que Floro não conhecia uma única personalidade política do Ceará e jamais estivera em Fortaleza! Somente depois de ter ido ao Rio de Janeiro, em agosto de 1913, travou relações com os Accioly, com o senador Cavalcante e com o próprio Pinheiro Machado!
Quanto ao Padre Cícero, era ele prisioneiro dos boatos que corriam sobre os incontáveis atos de hostilidade de Franco Rabelo, objeto de adulação por parte dos poderosos e egoístas exilados do Rio de Janeiro e o penhor confiante de Floro e Antônio Luís. Tornaram-se estes, juntamente com seus subordinados, os principais porta-vozes do solitário clérigo no referente à crise política de 1913. Até que ponto era sincera a confiança implícita que o Patriarca depositava em Floro e em Antônio Luís só se pode julgar pelos fatos posteriores, especialmente pelo seu último testamento. Nesse documento, o clérigo designou Floro e Antônio Luís testamenteiros de seu legado, o que representava uma indiscutível prova de confiança numa sociedade em que somente os amigos podiam garantir o cumprimento da lei. Admite-se que Antônio Luís e Floro não foram os únicos conspiradores. Havia, ainda, o imprevisível João Brígido, redator-chefe do jornal Unitário, a primeira pessoa a partir para o Rio de Janeiro em 1913 com o fim de conspirar contra o governo de Franco Rabelo.” Adianta ainda Della Cava:  “O alter ego (Dr. Floro) e o "oligarca mirim" (Cel. Antônio Luís) tornaram-se grandes  amigos e aliados políticos. Uma prova dessa camaradagem foi a importante atuação de Antônio Luís garantindo a nomeação de Floro para deputado estadual na chapa derrotada do PRC-C marreta, nas eleições de novembro de 1912. Desse momento em diante, as relações entre Floro e Antônio Luís ficaram mais íntimas; Floro visitava, com freqüência, a casa de Antônio Luís no Crato. Um encarnava a ambição e a audácia, o outro a esperteza política e o gosto pelo poder; juntos, galvanizaram o desespero dos chefes da velha guarda do Vale, levando-os a se compro-meterem com a revolta dirigida contra o governo de Franco Rabelo.”

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A morte do Boi mansinho - Por Dr. Floro Bartolomeu da Costa


Certo amigo (Delmiro Gouveia) ofereceu ao Padre Cícero um bonito garrote, mestiço de zebu, por ser raça ainda não conhecida naquele meio. Na impossibilidade de criá-lo dentro da cidade, confiou o tratamento do animal a um negro, de nome Zé Lourenço, residente no sítio "Baixa Dantas", do município do Crato.
Esse preto, quando ali chegou, já era "Penitente em sua terra", isto é, fazia parte de uma associação oficiosa, fundada pelos antigos missionários e ainda hoje tolerada por um ou outro padre.
Depois das perseguições religiosas ao Padre Cícero, começaram a fazer circular que Zé Lourenço, não tendo mais vida de penitente, abusava da crendice do povo, apresentando o "touro como autor de milagres".
Então se dizia que a urina do animal por ele era distribuída como eficaz medicamento para todas as moléstias, que dos seus cascos eram extraídos fragmentos para, em pequenos saquinhos serem pendurados ao pescoço, como relíquias, à moda do Santo Lenho; que todos se ajoelhavam em adoração diante do touro e lhe davam a beber mingaus e papas; enfim, tudo que uma alma perversa possa conceber.
Quando se procurava apurar a verdade, ninguém sabia informar, a começar pelos proprietários do sítio onde Zé Lourenço residia e trabalhava como rendeiro.
Os padres, não sei sob que fundamento, repetiam essas banalidades. O Padre Cícero, não obstante estar convencido da mentira, por diversas vezes tentou vender o animal; mas, não só Zé Lourenço, como também cavalheiros respeitáveis o impediam, fazendo sentir que além de ser inverdade o que espalhavam, o animal era um bom reprodutor e estava melhorando a raça do gado ali. Por isso mesmo todos os grandes e pequenos, o tratavam com carinho, mesmo porque era muito manso, donde veio a ser conhecido por "Mansinho".
Aconteceu que em um dos meses do ano atrasado, na ladeira do Horto, se deu um conflito entre um doido e alguns indivíduos  conhecidos por "Penitentes" e o inspetor policial do quarteirão.
Havendo ferimentos, foram presos os implicados por crime de natureza leve.
De acordo com o Padre Cícero, procurei, por meios brandos, conseguir acabar com a prática dos atos dos "Penitentes".
Os próprios "Penitentes" concordaram com a minha resolução entregando-me, para serem queimadas, as vestes apropriadas que ainda possuíam e as respectivas cruzes, as quais mandei queimar no cemitério.
Eles me informaram que às vezes, praticavam aquele ritual pelo hábito de suas terras, com o consentimento dos vigários e na intenção de sufragarem as almas do Purgatório, o que realmente não me era estranho.
Alguns amigos aconselharam-me nessa ocasião que eu desmascarasse os que acusavam Zé Lourenço de prática de feitiçaria. Respondi-lhes nada poder fazer, em virtude de ser ele morador no município do Crato.
Não sei quem informou o mesmo Zé Lourenço de que eu ia mandar prendê-lo.     O negro, supondo exata a notícia, no terceiro dia apareceu em minha residência. Foi quando o conheci pessoalmente.
Mandei prendê-lo, e, apesar das suas declarações, dele obtive a promessa de ir morar no Juazeiro, para evitar os boatos.
Ao mesmo tempo fiz vir o touro, e, de acordo com o padre, vendi-o para o corte, sob a condição de ser abatido pelo comprador em frente à cadeia.
Abatido o touro em frente à cadeia, em plena rua, às duas horas da tarde, perante centenas de pessoas, de acordo com o Padre Cícero, foi a carne conduzida para o açougue público, onde também foi vendida toda ela, não chegando para todos que quiseram comprá-la, visto ser da melhor qualidade.
Ao chegar a notícia, no Crato, de que Zé Lourenço não mais voltaria ao sitio Baixa Dantas, indo fixar residência no Juazeiro, recebi diversos telegramas, cartas e visitas de homens respeitáveis daquela cidade vizinha, empenhando-se para que eu não retirasse Zé Lourenço do seu sítio, tal a falta que ele fazia aos proprietários, pelo auxílio que lhes prestava nos trabalhos de agricultura, e em outros préstimos.
O pedido, porém, que calou mais no meu espírito foi o do capitão João de Brito, cunhado do nosso colega Deputado Hermenegildo Firmeza, o dono da terra da qual ele, Zé Lourenço, era rendeiro.
Consenti na volta do negro ao seu sitio, e assim terminou a história "das mil e uma noites" do touro "Mansinho".
Interrogando esses cavalheiros que se empenharam pela volta do negro, pelo motivo de não desmentirem os que o caluniavam, me responderam todos sempre assim terem procedido; mas que os boatos eram para desmoralizar o Padre Cícero e, dessa maneira, não podiam evitá-los.
Zé Lourenço, que não freqüentava o Juazeiro, depois disso começou a freqüentá-lo aos domingos para ali fazer sua feira, e, durante o tempo que eu lá estive, nesses mesmos dias, almoçava comigo, em minha casa, onde se hospedava.
(Extraído do seu livro Juazeiro do Padre Cícero –Depoimento para a história).

sábado, 30 de junho de 2012

O primeiro carnaval de Juazeiro



O primeiro carnaval realizado em Juazeiro aconteceu em fevereiro de 1925, por iniciativa de Dr. Floro Bartolomeu da Costa, que naquela época era Deputado Federal. Ele veio do Rio de Janeiro de onde trouxe todas as fantasias necessárias para a formação dos blocos que deveriam desfilar pelas ruas da cidade. Três blocos foram formados: Bloco das Bananas: liderado por Albertina Brasileiro; Bloco das Mexicanas: liderado por Ivone, Bellkiss e Ayta Suliano de Albuquerque; Bloco dos Cavadores: liderado por Walmique Gomes, Vicente e Dão Leite, Vicente Roque de Menezes e José Matias.   Àquela época existiam em Juazeiro apenas apenas dez automóveis, dois dos quais são mostrados na foto. Quem participou disse que foi  um carnaval bastante animado. E não ficou só no desfile, pois à noite Dr. Floro ainda patrocinou um alegre baile de máscaras para as famílias caririenses, em sua residência. As mulheres compareceram vestidas de colombinas e Dr. Floro, de pierrô. Segundo o memorialista Senhorzinho Ribeiro, em seu livro Juazeiro em corpo e alma, o carnaval daqui foi também o primeiro a ser realizado numa cidade do interior cearense, proeza que Juazeiro fica devendo ao seu ilustre representante político da época. Depois e durante muito tempo, o carnaval desta cidade teve em Antônio Fernandes Coimbra, popularmente conhecido como Mascote, o seu mais entusiasmado folião. O Treze Atlético Juazeirense foi palco durante muitos anos de  animados carnavais.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O CÍRCULO DA MÃE DE DEUS (Ou Trincheiras e Valados de Juazeiro) (FERNANDO MAIA DA NÓBREGA)

            A mais significativa forma de defesa usada pela cidade de Juazeiro do Norte, durante a sua sedição em 1914, foi a edificação dos valados e trincheiras, chamados pelos romeiros de “Círculo da Mãe de Deus.”
            A brilhante ideia de cercar Juazeiro com um enorme valado partiu de Antônio Vilanova, ex-combatente  da Guerra de Canudos, residente em Assaré (01) e que fora chamado pelo doutor Floro Bartolomeu  para ajudar na revolta de Juazeiro. Milhares de pessoas, mais precisamente cinqüenta mil, segundo Xavier de Oliveira(02),   foram convocadas  para fazer essas escavações, circundando Juazeiro, em apenas seis dias! A terra retirada dos valados foi colocada a três metros, para o lado dentro da cidade, constituindo as trincheiras.
            Hoje, quase não restam vestígios do “Círculo da Mãe de Deus” e há divergências  mesmo entre  os escritores quanto a extensão, largura e sua localização. O mais antigo deles a expor o assunto foi  Xavier de Oliveira que desta forma se expressou:   
“O valado, a trincheira inexpugnável do Juazeiro, tem de profundidade dez, e de largura doze palmos. Toda terra foi carregada para dentro, a alguns metros de distância, formando uma barreira de seis palmos de altura(...)”
São três léguas de vallados”(03)(sic)
           Segundo esse eminente historiador, tendo um palmo o tamanho de 22 centímetros, eis as especificações:
1-         Profundidade: 2.20 metros
2-         Largura:          2.64 metros
3-         Extensão:        18 quilômetros
4-         Localização:    Informa, tão somente, que circundava o Juazeiro.
           
           Já Manuel Diniz, em 1936, especifica:
“(..) em quanto milhares de pessoas cavavam, dia e noite, o grande valado para circundar a cidade, exceto do salgadinho(04) (...) ocupavam posições nas trincheiras que bordavam o valado mais ou menos na extensão de dez quilômetros e formando um semi-círculo do Nascente, Poente e sul desta cidade(05)
             Não  especificando as medidas, Diniz ressalta, apenas, a extensão de dez quilômetros,  e a não existência de valados  para os lados do rio Salgadinho.
             A respeitável escritora Amália Xavier, irmã de Xavier de Oliveira, nos dá a seguinte  informação: “(...) em 6 dias, 9 quilômetros de valados, em extensão, com 8 metros de largura por cinco de profundidade estavam terminados. O monte de areia jogado para  o lado de dentro, tinha de dois a três metros de altura, bombeados, numa distância de 3 mts de um para o outro.(...)”(06)
            Em assim sendo, vejamos a configuração dos valados aos olhos de Amália Xavier:
1-         Profundidade:  5 metros
2-         Largura:           8 metros
3-         Extensão:        9 quilômetros
4-         Localização :    especifica somente a trincheira das malvas.
            Otacílio Anselmo afirma:
“9...0 a verdade, porém, é que a fortificação, em cujo trabalho se empenharam a fundo, dia e noite, milhares de homens e mulheres de todas as idades, utilizando até latas e panelas de barro na remoção da terra, foi praticamente concluído em 5 dias”(07)..
                Mais adiante o autor sobredito informa que não havia valados e trincheiras do lado que corre o rio salgadinho. (08)
                A escritora Fátima Menezes, ao contrário dos autores supracitados, baseando-se no “ Diário de Fausto Guimarães”  sustenta a tese da existência de valados no salgadinhos e os nomeia:
“ 20 de dezembro (Sábado) – Segundo combate. Desta vez na trincheira de Santo Antônio que tem duração de quinze horas. Os rabelistas atacam  em três partes ao mesmo tempo; em volta dos valados: do “Salgadinho”,”Santo Antônio”  e “Quadro Pio X”(09)
            Concluí-se, por conseguinte, não haver uniformidade dos informes sobres os valados e trincheiras edificados em Juazeiro em 1913, no tocante a profundidade, largura,extensão e localização. Sabe-se, entretanto, que foram erguidos nos arredores da cidade os seguinte valados: Malvas, Santo Antônio e Quadra Pio X. A existência no Salgadinho é negada por escritores mais próximos do episódio: M. Diniz e Xavier de Oliveira. Somente Fátima Menezes o cita baseando-se num mapa, sem muita precisão, constante no “Diário de Fausto Guimarães”.
             Quanto às especificações físicas, se todos essas escavações obedeceram a uma medida  uniforme, vendo-se as fotos existentes dos valados e trincheiras, dá-se para se ter uma idéia que a profundidade e  largura mais se assemelham às descritas por Xavier de Oliveira: 2.20 por 2.64 metros.
             Em referência  a extensão territorial a tese mais aceitável é que seja de 09 a 10 quilômetros  conforme depoimentos de Xavier de Oliveira e Amália Xavier de Oliveira, haja vista sua abrangência ir das Malvas ao Horto, percurso este que se aproxima mais da realidade.     No tocante à localização,  Fátima Menezes nomeia quatro   valados e trincheiras: Malvas, Santo Antônio, Quadra Pio X e Salgadinho. Aceitamos também o ponto de vista da maioria dos autores sobre a inexistência de valados  para os lados do Salgadinho, como afirma Fátima Menezes existindo, tão somente, por aqueles lados, uma muralha  na Serra do Horto, mais precisamente no Santo Sepulcro, da qual ainda restam vestígos.
N O T A S
01-       Amália Xavier de Oliveira – O Padre Cícero que  eu conheci (verdadeira história história de juazeiro) pag. 151
02-       Xavier de Oliveira –Beatos e Cangaceiros pg.56-
03-       Idem.ibidem
04-       Manuel Diniz – Mistérios do Joazeiro pg.129
05-       Idem pg 130
06-       Amália Xavier, o.c. pag. 152
07-       Otacilio Anselmo –Mito e Realidade pag.400
08-       Idem pag 407
09-       Fátima Menezes- Homens e Fatos na História de Juazeiro, pag 79
BIBLIOGRAFIA
Anselmo,Otacílio –Padre Cícero –Mito e Realidade –Ed. Civilização Brasileira Rio de Janeiro 1968
Cava,Ralph Della – Milagre em Joaseiro.Paz e Terra.Rio de Janeiro 1976
Diniz,Manuel – Misterios do Joaseiro – Tipografia do Joaseiro. Juazeiro 1935
Filho, M.B.Lourenço – Juázeiro do Padre Cícero -3ª Edição – Companhia Melhoramento de são Paulo
Montenegro,Abelardo – Fanáticos e Cangaceiros –Ed.Henriqueta Galeno.fortaleza 1973
Menezes,Fátima – Homens e Fatos na história de Juazeiro.Ed. Universitária da UFPE.Recife 1989
Oliveira, Amália Xavier – O Padre Cícero que conheci(verdadeira história de Juazeiro).Rio de janeiro 1969
Oliveira, Xavier de – Beatos e Cangaceiros  Rio de janeiro 1920



terça-feira, 3 de abril de 2012

Jornal Nacional da Globo é apresentado ao vivo de Juazeiro









A noite de terça-feira, dia 29 de agosto de 2006, ficará para sempre gravada na memória de Juazeiro do Norte graças à realização de um evento inédito: nesta data o maior telejornal da televisão brasileira, o Jornal Nacional da TV Globo, foi apresentado diretamente desta cidade, através de um estúdio instalado na Serra do Horto, ao lado do Monumento do Padre Cícero. O telejornal foi ancorado simultaneamente do estúdio central no Rio de Janeiro, com Fátima Bernardes, e o estúdio de Juazeiro, com Pedro Bial e William Bonner. Uma multidão de mais de três mil pessoas se deslocou até à Serra do Horto proporcionando um belíssimo espetáculo que impressionou a toda a Caravana JN que veio a Juazeiro. Para deixar registrado mostramos acima uma série de fotografias do evento. A primeira foto é de Demontier Tenório, a segunda e a terceira são de João Carlos, clicadas diretamente do local. As demais foram clicadas pela Redação de Juazeiro on-line diretamente da tela do televisor. Na seqüência: William Bonner em três momentos – Pedro Bial com o chapéu que é o símbolo do romeiro e  a vinheta de encerramento da edição história do JN transmitido ao vivo de Juazeiro do Norte, uma das poucas cidades do Brasil a ter este privilégio

sábado, 24 de março de 2012

Padre Cícero e a Ourivesaria - Por Zeca Marques da Silva

Até 1900, no povoado de Juazeiro, não existiam ainda ourivesarias. O centro industrial e comercial do ouro era localizado na vizinha cidade do Crato. Havia tanta ourivesaria no Crato, que a Rua Bárbara de Alencar era denominada de Rua dos Ourives, pela grande quantidade de ourivesarias lá instaladas.
Em Barbalha, havia apenas uma ourivesaria, de propriedade do senhor Carlos Miguel Ângelo, conhecido por "Padre Ourives". Nessa ourivesaria trabalhava como operário Raimundo Nunes Branco, conhecido por "Doca". Doca era rapaz, e morava com sua irmã, Cassimira, conhecida por "Santa".
Santa era amiga do Padre Cícero e tinha entrada franca na casa dele. Certo dia, Santa foi visitar o Padre Cícero, e nessa visita, disse-lhe o Padre Cícero: "Diga a seu irmão Raimundo que venha instalar uma ourivesaria aqui no Juazeiro".
De volta a Barbalha, Dona Santa deu o recado do Padre Cícero a Doca, ao que ele lhe respondeu: "Não vou. O Juazeiro não tem nada para me oferecer".
Meses depois, Dona Santa foi mais uma vez à casa do Padre Cícero. Nessa ocasião, o Padre Cícero lhe perguntou: "Você deu o meu recado a seu irmão Raimundo?" Dona Santa respondeu: "Dei, mas o que ele respondeu é que este povoado não tem o que lhe oferecer". "Pois então, disse o Padre Cícero, diga a ele que, se não vier, eu vou lhe buscar".
Quando Doca recebeu de sua irmã a intimação, ficou impressionado. Prestou conta com o patrão e foi a Juazeiro. Chegando à casa do Padre Cícero, disse: "Pronto, aqui estou Padre Cícero, onde é que vou instalar minha ourivesaria?" Nessa ocasião o Padre Cícero deu a Doca a chave de uma casa localizada na Rua do Cruzeiro com a Rua São José, nos fundos onde é hoje a casa de Dona Alacoque Bezerra, e lhe disse: "Faça muitas alianças e brincos de ouro".
As informações acima foram prestadas pelo  nosso amigo José Anchieta, ourives residente na Rua Mons. Joviniano Barreto, nº 97, em frente à Escola de Primeiro Grau Padre Cícero.
Doca, o primeiro ourives do Juazeiro, apoiado com a proteção do Padre Cícero, ficou rico e conhecido por "Doca Ourives". Com a independência política de Juazeiro, a cidade acelerou o seu desenvolvimento, o comércio de ouro cresceu e as ourivesarias do Crato diminuíram a ponto de ficar apenas uma, a do senhor Theopisto Abath que ainda continua sob a direção de um de seus filhos.
Doca Ourives, rapaz bem parecido, mulherengo, só pensava em dinheiro. Nunca se lembrou de ir agradecer ao Padre Cícero o apoio que dele recebeu.
Anos depois o Padre Cícero perguntou a Dona Santa: "Como vai Raimundo com a ourivesaria"? "Muito bem, respondeu dona Santa, só tem um problema: é vaidoso e gasta de mais com farra".
— "Pois diga a ele, disse o Padre Cícero, que faça economia para que na velhice ele não sofra as conseqüências".
Santa deu o recado a Doca, e ele respondeu: "Bobagem, Santa, o que possuo eu morro e não se acaba".
O campo comercial abriu-se para outras ourivesarias. Doca ourives começou a fracassar. Mudou-se para uma casa na Rua Boa Vista, nº 114. Lá ele findou seus últimos dias de vida com uma oficina de conserto, morrendo em 1941, velho e pobre.
Os ourives que mais se destacaram nessa época até 1950, foram:  José Vicente de Lima, Enoque Vieira de Almeida, Paulo Maia, Antônio Vieira de Almeida, José Ourives, José Inácio da Costa, Luís Coimbra, José de Melo da Silva, Sutério Inácio da Costa, Antônio Flor e Luiz Gonçalves Pereira.
Depois dessa época surgiram outros ourives que assumiram a liderança da indústria de ouro que até hoje perdura e lidera o comércio de ouro no Juazeiro.
Em 1979, os irmãos Neri (Severino, Antônio, Aluísio e José), montaram a primeira fábrica de jóias em Juazeiro, a CIMEL-Comércio e Indústria Metalúrgica Limitada. No decorrer dos anos essa fábrica deixou de fabricar jóias e passou a fabricar sacos plásticos, continuando com a mesma sigla.
Para compensar e mostrar que Juazeiro não pode parar, surgiram três fábricas de jóias dos senhores: Josimar, Dr. José Wildon de Morais e José Machado Junior.
Em 1990, foi fundada em Juazeiro a Associação dos Fabricantes de Jóias. Essa Associação manteve por algum tempo  uma escola, tendo como finalidade aperfeiçoar operários na fabricação de jóias e lançar no comércio os mais variados modelos de jóias, libertando-nos assim das jóias fabricadas no sul do país. Atualmente  Juazeiro conta com algumas  fábricas de jóias, quase uma centena de ourivesarias, dezenas de casas de relojoarias  e muitas dezenas de boxes de vendas de ouro e jóias encascadas de ouro.
(Extraído do livro Milagres e previsões do Padre Cícero. José  (Zeca) Marques da Silva)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

História da independência de Juazeiro - Por Daniel Walker


No Brasil, o processo de emancipação política dos povoados e sua transformação em município é basicamente igual. Geralmente é assim: Em dado momento, a comunidade percebe que o povoado cresceu e é chegada a hora de deixar de pagar impostos ao município-sede, pois o retorno social dos recursos remetidos nem sempre corresponde aos anseios da população. Então, alguém, não necessariamente um líder, se sente no direito de representar a coletividade e convoca a população para desencadear o movimento de independência.
Com o povoado de Juazeiro foi desse mesmo jeito. Porém, a forma de desenvolvimento do processo foi diferente, daí porque a história da independência de Juazeiro é singular.
Em 1907 o povoado estava em franco desenvolvimento e pagando pesados impostos ao Crato. Um cidadão filho da terra, rico fazendeiro, divulgou um boletim no qual convocava a população para uma reunião cívica em que a emancipação do povoado era o principal tema da pauta.
A reunião foi um fiasco! Pouca gente compareceu. Alguém aventou a hipótese de que a população, embora desejosa de ver o povoado livre, estava dividida devido a divergências ideológicas e, por isso, vez por outra se desentendia. Na verdade, a população juazeirense, ontem como hoje, é formada por dois tipos de habitantes: os filhos da terra, chamados nativos, e os adventícios, chamados genericamente de romeiros, pois para aqui vieram atraídos pelas pregações de um padre, líder carismático autêntico, e pela crença num fato que todos acreditam como sendo milagre. Este fato, basicamente, consistiu no sangramento da hóstia na boca de uma beata quando a mesma comungava, além de outros fenômenos igualmente estranhos.
O filho da terra e rico fazendeiro referido acima conseguiu a adesão de dois destemidos adventícios para engrossar as fileiras do movimento: um padre cratense fugido de sua cidade por questões políticas com o prefeito e um médico baiano com habilidade em advocacia, embora não fosse advogado formado, que para aqui veio se oferecer para resolver pendências jurídicas referentes a umas minas de cobre do padre que vivia no lugar, mas estava suspenso das ordens eclesiásticas, o líder carismático já citado.  Por coincidência, os dois forasteiros também eram jornalistas.
Assim, melhor preparado, o grupo resolveu fundar um jornal, cujo objetivo seria servir de ponta-de-lança do movimento de independência do povoado.
Mas, apesar de todo o empenho o empreendimento não crescia da forma desejada. Algumas razões impediam-no: o fazendeiro rico não se dava bem com o prefeito do município-sede e os adventícios chamados romeiros se achavam discriminados pela população nativa.
Era preciso, então, o surgimento de um fato novo, porém forte o suficiente para esquentar os ânimos da população e capaz de deixar todos com os nervos à flor da pele, prontos para fazer valer a reivindicação tão justa.
E, por incrível que pareça, em vez de um apenas, surgiram três. Um atentado de morte contra o médico baiano; uma frase insultuosa ao povo juazeirense proferida no Crato durante uma visita pastoral do bispo auxiliar de Fortaleza, por um padre da comitiva e finalmente, a determinação desastrosa do prefeito cratense que ameaçou de forma ostensiva usar a força policial para receber os impostos atrasados, que os contribuintes resolveram não pagar mais.  A ordem do prefeito era severa: em caso de resistência, bala! 
Pronto, estava criado o ambiente propício para o líder carismático do lugar agir. Ele até então se encontrava receoso, pois era adepto da política da boa vizinhança, e também não queria se indispor com o prefeito cratense, seu amigo, cujo pai havia contribuído de forma bastante efetiva para sua ordenação. E como se não bastasse, era ele próprio um cratense da gema.
A situação era dramática e clamava por uma decisão imediata, pois um conflito armado estava prestes a ocorrer.
 O líder carismático, o padre dos romeiros, estava num dilema: honrar sua naturalidade cratense ou defender a terra que adotou, optando, assim, pela cidadania juazeirense.
Com a frase pronunciada em tom enérgico - “Sou filho do Crato, mas Juazeiro é meu filho” -, o líder carismático desfraldou finalmente a bandeira de independência, e o povoado se tornou livre.
Esta história narrada desta forma, em rápidas pinceladas, é importante demais para terminar aqui. Por isso ela é contada com mais detalhes no meu livro que tem o mesmo título desta matéria.